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Week-End à Francesa [Crítica]

“Week end” é o segundo filme que assisto do diretor Jean-Luc Godard e com toda certeza o que menos me cativou. Se seu outro filme — “Acossado” — já não havia me proporcionado uma experiência, digamos, lá muito satisfatória, ao menos suas inovações artísticas e estéticas saíram como uma boa lembrança de sua obra. Neste caso aqui, temos um devaneio alucinado do diretor que se propõe a dizer muito mas sofre da síndrome do intelectual revolucionário — comento mais a frente.

De trama, não temos nada. A premissa é a de que um casal pretende matar os pais da moça para abocanhar a herança, mas isso é o menos importante nessa obra que pretende criticar a sociedade burguesa, ao estilo de “Discreto Charme da Burguesia”, mas se destrambelha por discursos políticos, acontecimentos surreais, personagens desvairados e uma metalinguagem despejada aos quatro ventos.

Quanto me referi a tal “síndrome do intelectual revolucionário” quis dizer que sim, temos aqui um discurso bastante óbvio e um mensagem política e social muito revolucionárias para a época, para o diretor e até mesmo para o cinema. O problema está em que público se quer atingir com tais argumentos. Sendo uma obra tão restritiva, a mensagem pouco vai oferecer de realmente revolucionário de uma perspectiva mais ampla para com a sociedade. No Brasil temos o caso do nosso querido Glauber Rocha. Sua estética e narrativas revolucionárias para o cinema brasileiro pouco se comunicavam com o povo e seus filmes ficavam restritos a círculos intelectuais. Assim, sua grande mensagem sociopolítica não tinha capacidade de atingir a massa da população porque sua linguagem era demasiada complexa para o povo. É isso que eu sempre critico nesse tipo de abordagem. Mesmo que de um ponto de vista artístico o cinema convencional seja preterido, é ele que tem a linguagem mais amplamente divulgada e capaz de se comunicar a fundo com a grande massa da população e assim um mensagem, por mais que singela, apresentada através de um filme comercial consegue ter uma absorção muito mais ampla na sociedade.

Enfim, voltando para a obra em questão. Aqui Godard se joga sem medo no surrealismo, numa obra que se assemelha bastante ao cinema de Luis Buñuel, ao qual o filme até faz referência. Um dos vários intertítulos traz a menção a “O Anjo Exterminador”, uma das obras do diretor espanhol lançada 5 anos antes. E esse não é nem de longe o único lampejo de metalinguagem que é empregada no filme. A todo momento os personagens se comunicam e agem como se soubessem de sua existência fictícia. Um deles até comenta que o filme é ruim porque ficam andando de um lado para o outro e a todo momento aparecem personagens aleatórios. E sim, realmente é exatamente isso que acontece durante o filme inteiro.

A produção traz cenas bastante complexas como um plano sequência envolvendo dezenas de carros enfileirados num congestionamento enorme. Vários carros destruídos, cenários devastados e sequências desconexas. No meio de tudo isso são proferidos desde diálogos e comentários mais contidos até longos discursos políticos bastante óbvios sobre os mais variados temas políticos da modernidade. Assim, busca-se transmitir a podridão da sociedade capitalista e ressaltar as mazelas sociais por ela proporcionadas. A certo ponto, os feitos técnicos chegam a ser ofuscados por uma trama que é tão descabida de lógica que me fez perder os rumos dos meus próprios pensamentos enquanto assistia. Sim, há bastante conteúdo a ser absorvido aqui, mas a maneira empregada é deveras arrogante e isso me distanciou muito da obra. Talvez se eu tivesse encarado desde o início como um filme discurso, talvez não tivesse gastado tanto tempo tentando encontrar lógica em uma obra que não se presta a tal.

Após a assistida procurei uma crítica para buscar opiniões diversas acerca dessa obra — coisa que raramente faço antes de escrever a minha própria crítica — e um dos meus críticos favoritos havia analisado à época esse filme. Sobre o longa, Roger Ebert traz uma frase que resume muito bem a minha experiência — por mais que ele, ao contrário de mim, tenha atribuído nota máxima ao filme — “It’s as bad as life” (Tão ruim quanto a vida). Realmente, no que se propõe a criticar, o filme consegue expor essa realidade humana fadada ao fracasso em um sistema que segue nos levando rumo a um colapso e que faz nossa existência ser encarada de um jeito tão pessimista quanto o visto na obra. Dessa forma, a frase de Ebert conclui muito bem a experiência e a forma como o diretor conseguiu trazer à tona sua mensagem central.

Por outro lado, minhas notas — e por consequência meus textos — dizem respeito primordialmente a minha experiência com o filme e não suas pretensões sociais e políticas. Desse modo, confesso que foi angustiante passar por esses 105 minutos de filme raciocinando o que seria de fato que eu tinha diante dos meus olhos. Sem dúvidas essa é uma obra corajosa e bastante excêntrica que tem muito a dizer, mas escolhe os caminhos mais árduos e desgastantes para tal.

Nota do autor:

Avaliação: 1 de 5.

Gabriel Santana

Título OriginalWeek end
Lançamento1967
País de OrigemFrança/Itália
DistribuidoraThe Criterion Collection
Duração1h45m
DireçãoJean-Luc Godard

Onde Assistir?
(não oficial)

https://x.com/acervododrive/status/1632478782832377857

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