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Cães Não Usam Calças

Cães Não Usam Calças

2019 1h 41min J-P Valkeapää 0
4
AVALIAÇÃO
Publicado em 03 de dez de 2025 às 18:00

Nossa Crítica

Esse é um daqueles filmes que fazem uma viagem pelo subconsciente, trazendo uma análise profunda acerca do luto, dos traumas e dos prazeres humanos. De maneira poética, a obra nos conta muito sem dizer quase nada. É um filme intenso, mas que se apresenta à primeira vista de maneira suave e tranquila, assim como o protagonista. Sem dúvidas uma obra potente em suas temáticas, mas que certamente não se propõe a agradar todos os públicos.

Juha é um cirurgião que perde sua esposa de forma traumática e que na tentativa de salvá-la passa por uma experiência de quase-morte. O tempo passa e a filha do casal que à época do acidente ainda era uma criança agora já é adolescente e parece ter lidado com a perda bem melhor do que o pai que ainda continua tentando manter viva a presença da esposa em sua vida. Certa noite, por acaso, Juha experimenta uma sessão de BDSM, despertando nele um fetiche masoquista que o remete ao momento da perda de sua esposa. A experiência acaba se tornando um vício e, assim como uma droga, o faz começar a abdicar de sua própria vida em busca de experimentar de novo e de novo esse prazer incomum, trazendo consequências problemáticas em suas relações de vida.

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Os traumas humanos são temáticas frequentes no cinema, mas cada filme tem sua própria maneira de abordá-los. Aqui o filme faz um estudo de personagem complexo e bastante cativante sobre o luto, desde a dor da perda até a negação inconsciente. A narrativa é extremamente cativante, mesmo sem expor muito acerca do passado dos personagens. Uma escolha que torna toda essa experiência uma trama ampla e que se encaixa em quaisquer contextos semelhantes. Assim, a capacidade de empatia que o filme consegue gerar é assustadoramente atraente, por mais exóticas que sejam as situações desbravadas pelo protagonista.

Esse é um filme esteticamente perfeito. A meu ver, a fotografia e direção de arte são impecáveis. Diversas cenas são belíssimas e deslumbram nossos sentidos, mesmo que a atmosfera seja tensa e pesada. Há planos poéticos com utilização de uma câmera lenta certeira, closes precisos para exaltar as expressões e emoções dos personagens nos momentos certos e uma utilização maravilhosa da iluminação que ressalta visualmente a intensidade de várias das cenas principais. Isso tudo se alia a uma trilha sonora que não nos deixa descansar, pois a todo tempo ficamos na iminência de descobrir até onde aquele homem seria capaz de ir.

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Outra área que sempre me chama atenção nas obras cinematográficas é a montagem e nesse filme isso aconteceu de maneira ainda mais interessante. Não somente porque é uma área de grande interesse meu, mas esse atributo aqui no filme é muito bem utilizado e de maneira bastante consciente pela sua montadora. Lembro que brinquei assistindo o filme comentando que a montagem tem um quê de construtivismo russo do cinema de Eisenstein mas, apesar da anedota, realmente acredito que há uma montagem que agrega muito no entendimento total da obra.

Por mais tenso e claustrofóbico que o filme seja, a montagem torna a obra uma experiência dinâmica e nada cansativa. Além disso, a justaposição inteligente de planos com elementos que fazem uma metáfora visual se sucedem frequentemente no filme, trazendo camadas de entendimento perspicazes sem que o longa precise parar em diálogos expositivos. O filme mal tem diálogos longos, inclusive. O filme se comunica muito mais visualmente e emocionalmente conosco e isso é muito gostoso. É uma das maneiras de o cinema se diferenciar de outras artes e aqui isso foi usado de uma forma muito coerente.

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Quanto ao desenvolvimento do personagem principal, são muitas as camadas que são abordadas dentro de sua personalidade, mesmo que algumas delas não ganhem um desenvolvimento tão profundo. São levantadas questões relacionadas à paternidade, à sexualidade, ao amor, ao trabalho, ao luto e tudo isso sendo desenvolvido paralelamente e sem muito alarde. O ponto mais interessante, a meu ver, está na forma como sua tentativa desesperada de reviver sua sensação de quase morte para recuperar pequenos fragmentos de memórias de sua esposa acaba se tornando uma dependência prejudicial e que o leva para um caminho de decadência física e emocional. Como pai, ele se torna ainda mais ausente emocionalmente para sua filha e apesar de sua nova fixação masoquista, essa relação é a única que o faz cair em si minimamente.

Um ponto pouco desenvolvido, sem dúvidas, é a personalidade da nova companheira do protagonista, que apesar de não se envolver para muito além do físico no primeiro momento, acaba criando uma relação emocional curiosa para a sua posição profissional. A sua parte emocional acaba ficando reservada a nossa interpretação. Já o protagonista, em sua jornada por uma descoberta interior de seus desejos, prazeres e dores, acaba o colocando num caminho de obsessão por aquela sensação e não primordialmente com aquela pessoa específica. Mas, ao longo da sua decadência, esse homem acaba finalmente se descobrindo ou ao menos desenvolve um entendimento de suas angústias, se libertando finalmente de suas aflições nostálgicas e desenvolvendo uma afeição por Mona, sua sádica dominadora.

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Enfim, esse é um filme potente, intenso, angustiante e até mesmo sedutor, mas além de tudo isso, uma obra cinematográfica realmente interessante para se apreciar, seja pelas suas excelentes características técnicas, seja pelo seu perspicaz desenvolvimento narrativo peculiar.

Nota
4

Gabriel Santana

Cena final

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