
Introdução
Quando começamos no cinema, uma das primeiras coisas que sempre é ressaltada é que o cinema é coletivo. Sendo uma arte coletiva, é extremamente importante estar sempre aberto a novas perspectivas, conhecendo novas referências e se aventurando em descobrir novos artistas para, além de apreciar suas obras, se conectar com narrativas completamente únicas e aprender com todo esse processo.
É por tal razão que decidimos inaugurar aqui no Diário dos Filmes um espaço para conhecermos pessoas, promover diálogos e trocar referências e conhecimentos através de uma simples conversa. Abrindo nesse novo ano uma nova fase, o Diário dos Filmes tem a honra de apresentar um novo formato aqui no site e em nossas demais redes. Para estrear nosso quadro de entrevistas, temos hoje o prazer de compartilhar a conversa que tivemos com o diretor, diretor de arte, roteirista, montador e — sabe-se lá quantas coisas mais — sócio fundador da produtora Filmes de Marte, Henrique Arruda.
A entrevista completa em formato de áudio está disponível no podcast do Diário dos Filmes no Spotify. Fique à vontade para prestigiar a qualquer momento esse papo que foi muito frutífero e bem-humorado.
Quem é henrique arruda?
Henrique Arruda é um jornalista e cineasta que em sua carreira já acumula mais de 80 prêmios concedidos às suas produções. São 7 curta-metragens e um longa até o momento, sendo que seu segundo longa está em processo de produção. Em nossa entrevista, Henrique nos conta sobre suas inspirações para adentrar no mundo do cinema, como funciona seu processo criativo e seu apego pelas suas criações, além de expressar sua visão acerca do cinema e mais especificamente sobre o cenário do cinema pernambucano e nordestino.
Assim como todos nós aspirantes a cineasta já pensamos, em algum momento de nossas vidas, o cinema também parecia um sonho irreal para Henrique.
“Eu sempre achei impossível. Tipo assim, como assim viver de cinema?”
Dessa forma, o jeito foi seguir para o jornalismo, faculdade que cursou em Natal, no Rio Grande do Norte. Foi lá também que uma oportunidade surgiu em sua vida, num momento em que o cinema de Natal passou por uma fase de retomada. Assim, o amor pela sétima arte trouxe uma nova perspectiva de futuro, como comenta:
“E aí quando eu vi uma movimentação acontecendo eu falei: poxa, acho que eu vou meter o louco e fazer um filme também […] e aí surgiu Ainda Não lhe Fiz uma Canção de Amor que foi meu primeiro filme e também o filme de estréia […] da Filmes de Marte.”
Desde então, todas as suas obras têm um apelo estético e narrativo muito marcantes e sua construção de mundos novos foi o que o fez definir o nome de sua produtora, a Filmes de Marte:
“Eu sempre tive essa dimensão de que eu queria fazer filmes que criassem universos.”
SUAS INSPIRAÇÕES

Como toda criança apaixonada por cinema, Henrique comenta que cresceu apreciando o cinema da maneira mais acessível que tinha à época, a Sessão da Tarde. Assim, ele comenta que traz em suas obras sempre muitas das suas referências de infância e de sua adolescência, ajudando a dar um tempero próprio para suas criações:
“Eu acho que sou uma bicha extremamente pop. […] Minha vida é a minha santíssima trindade que é a Lady Gaga, Britney [Spears] e Madonna. E acho que toda coisa pop me inspira. […] Eu acho que tudo que é pop, […] essa simbologia colorida, iconográfica, visual. […] E a Sessão da Tarde acaba sendo um símbolo de entrada de toda criança dos anos 90 que ficava em casa e tinha aquele acesso ali ao cinema. Eu sou muito uma criança que surgiu do Castelo Rá-Tim-Bum e da Sessão da Tarde e dos filmes da Xuxa.”
“Eu sou uma bicha do exagero. Eu gosto dessa coisa meio novela e dessa coisa meio popular. Eu gosto que as pessoas assistam meus filmes e compreendam suas próprias realidades disso. Eu não sou desse cinema tão cabeçudo, muito embora acho massa.”
Com essa perspectiva de produzir um cinema acessível e capaz de se conectar com seu público de maneira profunda e bastante pessoal, Henrique expõe a principal vertente narrativa de seu cinema, a criação de narrativas queers:
“É muito um objetivo meu e um pensamento muito natural de inserir nossos corpos [queers] exatamente nessas narrativas que a gente cresceu assistindo. Meu sonho é pegar um orçamento gigantesco para fazer uma batalha espacial de drag queens e sapatão.”
“Românticos [Os Últimos Românticos do Mundo] é um filme que eu gostaria de ter visto na Sessão da Tarde exatamente como ele é. Com dois homens se beijando, com as mães totalmente queers como são.”
Corrobora com essa sua perspectiva, sua principal linha temática que está presente em vários de seus filmes:
“Minha principal linha de pesquisa no cinema é o envelhecimento do corpo LGBT. […] Filhos da Noite são homens gays acima de 50 anos e Filhas da Noite são nossas divas também acima dos 50 anos, que é a versão em longa metragem. [Esses dois filmes] são o momento máximo dessa minha pesquisa sobre envelhecimento do corpo LGBT no cinema e Românticos também traz muito disso.”
SOBRE SEU PROCESSO CRIATIVO
Antes de conhecer um pouco melhor propriamente as criações que ganharam vida provenientes da mente de Henrique, conheçamos um pouco de como funciona esse seu processo criativo. Para ele, essa parte de desenvolvimento exige uma total imersão, em quaisquer que sejam os departamentos que assuma:
“É uma loucura, é muito devastador. Quando eu vou gravar um filme meu, eu preciso estar isolado do mundo pelo menos um mês. […] É um nível de deslocamento da realidade absurdo.”
“É como se eu precisasse ver um figurino escolhido por mim porque isso também é meu roteiro, isso também é minha direção. […] Eu fui entendendo isso ao longo dos anos e é isso. É muito um lugar de criação mesmo.”
“Eu sou ariano, então é dificílimo eu me desapegar das coisas e então eu cometo o suicício de não deixar que ninguém edite nada meu. […] Ninguém conhece tão bem minha cabeça quanto eu, […] então é melhor eu mesmo sentar na frente do Premiere e aí eu mesmo vou cortando, vou botando, vou descobrindo coisas. […] Gente, isso é lindo, isso é escrever um roteiro, então eu não consigo me desvencilhar disso.”
Ainda sobre esse momento de criação, Arruda revela que tenta não misturar os objetivos específicos de cada momento de uma produção, reservando o devido lugar para a idealização, produção e somente então a distribuição e ainda comenta sobre o público alvo de seu cinema:
“Eu não acho que meu cinema seja um cinema de Veneza, de Cannes. […] Eu acho que o meu cinema tá na gente, tá para as universidades, para os festivais independentes, tá para esses circuitos. E quando ele sai disso, é maravilhoso.”
“Sem dúvidas a distribuição é uma loucura. Principalmente no campo do curta-metragem, a gente faz tudo. Então a gente tem a ideia, a gente inscreve no edital, a gente aprova e lida com essa grana, a gente tem que filmar. E filmando, […] a gente é que tem que ficar de olho em festival e ficar inscrevendo e entender qual o perfil do seu filme.”
Recentemente seus filmes ganharam espaço de exibição também no Canal Brasil, algo que ajuda ainda mais a dar uma maior visibilidade nacional às suas obras:
“Veio Amor by Night no começo do ano, mas veio também o Românticos, o Filhos da Noite. Acho que eu tô com quatro filmes lá e foi muito ao acaso também. Um filme foi levando o outro.”
SUAS OBRAS

Adentrando agora em suas obras, conversamos também como foi o processo específico de concepção de suas obras — “Filhos da Noite”/“Filhas da Noite” e “Era uma vez Diversiones” — e a experiência de compartilhar a direção com suas colegas:
“Filhas da Noite na verdade tem várias etapas. Ele surgiu como um site e existe hoje em dia esse site, filhasdanoite.com e filhosdanoite.com que é onde essas fotos estão lá, que foi a primeira parte do projeto. Depois eu gravei um curta-metragem de Filhos da Noite e aí Filhas da Noite a gente já sabia desde o início que seria um longa, mas aí a gente só tinha aprovado grana pra fazer um curta então a gente olhou um para a cara do outro e disse: é, vamos meter o louco. E aí a gente meteu o louco.”
“Eu definitivamente não sou uma pessoa do documentário, mas o documentário me chama. […] E Filhas da Noite foi um pouco nesse sentido. […] Acho que documentário me deixa num lugar completamente inseguro de tudo porque eu acho que é uma obra incompleta sempre. E Sylara [Silvério] tem um olhar documental absurdo e eu acho que foi uma coisa muito nossa, porque a gente é muito próximo, muito amigo, então foi também um processo muito incrível de fazer junto com ela.”
“Essa coisa de contar a história de Sharlene [Esse] isso já vem de muito mais tempo atrás. [Era uma vez Diversiones] é quase um complemento de Filhas da Noite, […] mas essa ideia de contar esse trecho da história de Sharlene não cabia no filme. Então quando abriu aqui a [Lei] Paulo Gustavo, eu e Sharlene, a gente se reuniu e disse: vamos pensar alguma coisa sobre isso.”
“O Diversiones ele fala, além do começo da história de Sharlene há 40 anos atrás, fala também sobre um grupo teatral que foi icônico aqui em Recife, que foi o Vivencial Diversiones. Na verdade eles foram icônicos em Olinda, mas eles revolucionaram a cena pernambucana. […] A gente fala sobre esse grupo na casa onde quase originalmente tudo aconteceu.”
“Era impossível em Diversiones contar a história de Sharlene e não abraçar 100% ela e fazer ela enxergar também que ela era uma diretora incrível. A partir do momento que ela escolhe o que ela quer contar, que ela escolhe o que poderia ser usado ou não. […] Foi muito legal. […] Imagina, Diversiones é a história dela, ela atuando, ela me ajudando a construir esse roteiro, então foi muito da gente entender junto essa coisa e foi uma delícia, de verdade.”
SUA PERSPECTIVA DO CINEMA NORDESTINO
“Amo Inferninho, é um filme que é eterna referência, de Guto Parente e de [Pedro Diógenes]. São dois diretores e é do Ceará esse filme, absolutamente incrível. […] Queria ter feito Inferninho.”
Além de servirem de referências para seus filmes, o cinema do Nordeste também virou assunto central em nossa conversa. Henrique nos explicou sua visão sobre a fase que o audiovisual está passando em nossa região:
“Acho que a [Política Nacional] Aldir Blanc e a [Lei] Paulo Gustavo acabaram sendo bons respiros para muita gente acessar esses recursos e poderem contar suas histórias. Eu tenho sido chamado cada vez mais para fazer a direção de arte de uma galera muito jovem, de uma galera muito massa e que tem conseguido acessar esses recursos através dos editais. Mas a gente sabe que é muito louco essa batalha do cinema.”
“Às vezes a gente entra no Uber […] e quando começa a conversar e pergunta a você o que você faz da vida, aí quando eu tô com muita disposição aí eu falo: cinema. […] Porque quando a gente fala cinema é sempre aquela pergunta: como assim, cinema? Dá pra viver de cinema? E aí como é que você responde um negócio desse? Deve dar, né? Tô aqui vivo até hoje, mas assim, a que custo?”
Além disso, ele também comenta sobre a realidade pernambucana:
“Em Pernambuco acho que a gente ainda tem um certo respiro porque a gente tem um edital aqui muito forte também que é o FUNCULTURA [Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura] Audiovisual que anualmente ele injeta um valor muito bom, que nem de longe é o ideal, mas que todo ano existe porque é uma lei. Então todo ano ele sai e todo ano tem novas produções acontecendo, todo ano tem festivais, laboratórios de formação, curta-metragens, cineclubes sendo alimentados por esse edital. Então isso é muito bom, mas não é a realidade de amigos meus que estão em outros lugares onde praticamente não existem editais públicos para cinema. […] Então é foda, viver de cinema é foda.”
“É muito pouco dos destaques que são gigantescos financeiramente. Eu acho que [só] existe um Kleber Mendonça em Pernambuco e existem milhões de outros que estão no mesmo espectro, lutando pelos seus espaços e lutando por recursos e eu acho que é isso em todo lugar. Todos os meus amigos que estão em outros lugares e que trabalham com cinema é a mesma loucura.”
Com a intenção de expandir ainda mais nossos horizontes do cinema independente regional e promover um intercâmbio de referências e visões artísticas, pedimos para ele algumas sugestões de nomes que precisamos conhecer e esses foram os diretores e diretoras indicados por Henrique Arruda.
Ander Beça – https://www.instagram.com/aaamnder/
Renna Costa – https://www.instagram.com/costadarenna/
Felipe André Silva – https://www.instagram.com/umfelipeandresilva/
Enock Carvalho e Matheus Farias – https://www.instagram.com/enock_c/ e https://www.instagram.com/matheusfariassmelo/
Felipe Marcena – https://www.instagram.com/filipemarcena/
George Pedrosa – https://www.instagram.com/b0ygeorge/
OUTROS PROJETOS E FUTURO

Henrique não se contentou apenas em realizar suas produções, mas também alçou novos voos em projetos para além da criação de filmes. Sua produtora organiza o laboratório MarteLab e ele também é idealizador do Festival Fabulosa, como comenta a seguir:
“A gente tem o MarteLab que é esse outro projeto que é muito para formar mulheres e pessoas LGBT porque são essas equipes que a gente acredita, […] então a gente anualmente luta por isso.”
“E o [Festival] Fabulosa, que é um baby mais recente — […] a gente está na segunda edição, vamos para a terceira esse ano — vem muito desse pensamento de sempre ser o meio estranho nos festivais que eu passava. Porque a gente sabe que os filmes LGBT tem uma tendência gigantesca a ser […] sempre tristíssimos e naturalistas. […] Eu sempre me encontrei nesse lugar estranho mesmo, de não achar que meu curta dialoga tanto com uma sessão ou outra e aí eu criei um festival […] com a cara que eu acho que tem que ter também, que são para esses filmes estranhos. […] Então é uma diversão, é incrível descobrir essas obras e o Fabulosa tem feito muito esse trabalho.”
“A cada ano a gente vai criando coisas para que várias artes acabem entrando na sala de cinema e dialoguem com esses filmes que estão sendo exibidos. […] A gente conseguiu uma resposta muito incrível do público ano passado. […] A gente tá falando aí de quase 1.300 ingressos que esgotaram [dois dias antes do festival começar]. Então foi muito incrível.”
Por fim, sobre seu novo longa de ficção, Henrique foi sucinto e nos comentou apenas que deve seguir sua mesma linha cinematográfica:
“Ele também é um longa que trabalha fantasia e tudo que eu venho fazendo todos esses anos, […] mas ele ainda não tem data de nada.”
CONCLUSões
Finalizando uma conversa maravilhosa, Henrique nos deixou sua dica de como nos mantermos firmes nesse caminho do cinema:
“É encontrar essencialmente a parada de vocês e acreditar nela até o fim. Igual eu amava peles coloridas, mundos cor de rosa e apostei nisso e até hoje vivo nessa palhaçada. […] Mas é não desistindo que eu consigo fazer e que eu tô aí. […] Acreditem na essência de vocês e defendam ela.”
Assim, encerramos essa conversa incrível, cheia de aprendizado, troca de referências e descobertas acerca da vivência de um realizador independente que sobrevive do cinema num país que ainda se recusa a enxergar na arte uma forma de vida digna. Ressaltamos novamente que a nossa conversa completa com o Henrique Arruda, que contou com a presença de Gabriel Santana, Júlio César Gama e Gessica Lima, pode ser conferida no podcast do Diário dos Filmes no Spotify.
Nos encontramos novamente por aqui, sempre para promover o diálogo e a discussão sobre a arte cinematográfica. Até a próxima.
Conheça mais o trabalho de Henrique Arruda nos links abaixo:




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