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A Meia-Irmã Feia [Crítica]

Surfando numa onda de paródias e reimaginações de histórias clássicas, esse filme segue uma vertente mais fiel da obra, mudando apenas o ponto de vista do espectador e trazendo uma estética mais sórdida e crua. “A Meia-Irmã Feia” é ainda um filme que traz uma mensagem pertinente a partir de uma perspectiva muitas vezes ignorada do conto original e que ainda nos tem a comunicar, questionar e impactar nos dias atuais. Por mais que eu possa questionar uma ou outra escolha do filme, não posso negar que seja uma obra realmente interessante e uma execução bastante hábil.

Na trama acompanhamos Elvira que, sabendo da organização de um baile pelo príncipe no qual o próprio escolherá dentre as pretendentes uma mulher para ser sua esposa, busca a todo custo se adequar aos padrões de beleza estabelecidos, recorrendo a métodos cada vez mais drásticos. Por outro lado, sua meia-irmã Agnes parece que por mágica se encaixar nos moldes perfeitos para satisfazer as expectativas do príncipe e colocar uma barreira intransponível para os planos de Elvira. Temos então a mesma premissa de Cinderela mas que aqui é contada a partir da visão de uma de suas irmãs rejeitadas.

Com um conceito de terror gore, comecei o filme achando que essa seria uma história baseada no conto de fadas, mas com uma proposta de paródia, trazendo uma trama que pudesse transformar a premissa numa obra mais profunda e dramática, mudando alguns elementos da clássica história medieval. Porém, o filme até consegue realizar essas mudanças mencionadas, mas se apresenta apenas como uma reinterpretação do conto de fadas. Por mais que não tenha realizado minhas expectativas de uma história um pouco mais surpreendente, a obra é correta e consegue ser muito perspicaz no que se propõe.

Há apenas um erro que considero mais relevante nesse filme e acho que preciso dar um espaço especial para comentá-lo aqui. Mesmo se tratando de um conto de fadas, a magia não está tão presente aqui e quase não pode ser notada, à exceção de uma cena. E é exatamente essa cena que me incomodou e quebrou totalmente minha imersão. Em toda a duração do filme somos mergulhados numa atmosfera tensa e pesada, acompanhando uma história com bases no realismo naturalista, mas essa cena introduz a magia e quebra totalmente essa experiência — por um curto espaço de tempo, mas quebra. E reitero minha insatisfação porque acredito que nada essa cena tenha a acrescentar de fato à obra. O erro portanto está presente desde o roteiro, passando pela direção — ambos da estreante em longas Emilie Blichfeldt — e até mesmo pela montagem. Com uma perspicácia de montagem — e a devida liberdade criativa — até mesmo a montadora poderia remover aquela cena sem alterar em nada o entendimento da obra, já que o espectador já conhece a história original e já iria pressupor o que aconteceu ali. Feita tal ressalva, no mais, o filme não me desagradou tanto em mais nada durante sua duração.

Passando agora para pontos em que o filme acerta substancialmente, temos a clara mensagem que o filme nos apresenta e a crítica mais do que pertinente aos ideais de beleza arraigados à nossa sociedade. Muitos desses que perduram até hoje, fazendo das mulheres suas maiores vítimas. Sendo uma obra conduzida por uma mulher, o filme tem uma perspicácia muito grande em nos fazer pensar a respeito dessa problemática e ainda nos chocar trazendo as suas consequências de maneira assustadora, num paralelo claro ao que muitas pessoas se submetem ainda atualmente para se manter nos padrões de beleza esperados pela sociedade, numa pegada parecida com “A Substância”. Utilizar de uma premissa já tão conhecida ainda serve muito bem para nos fazer repensar obras e representações que corroboram para a perpetuação de tal problemática.

Algo que à primeira vista tinha me incomodado foi a forma como a “irmã feia” deixa de ser apenas uma vítima dos ideais de beleza da sociedade e passa a ser ela mesma sua própria vilã. Achei que a imposição social fosse deixar de ser o foco central para abordar uma questão de psicologia da personagem, mas notei que uma coisa não substitui a outra. Essa mentalidade que é desenvolvida por Elvira acaba mostrando como esse pensamento é injetado na mente das meninas e das moças através de séculos, tornando-as suas próprias algozes. Ao fim, através de uma singela passagem, o filme ainda nos apresenta uma visão de que a união das mulheres deve acontecer para que não se perpetuem tais crenças coercivas e essas regras e padrões sejam finalmente derrubados.

Como um filme de terror, esse filme mostra-se como um grande acerto pois, além das questões subentendidas que o filme nos comunica de maneira inteligente, temos um clima tenso, pesado, incômodo e claustrofóbico, com cenas chocantes, agoniantes e até mesmo perturbadoras. O gore aqui não é empregado com desdém, mas com um propósito narrativo muito bem estabelecido e uma realização técnica muito convincente.

Assim, o longa se mostra como uma releitura inteligente e que nos tem muito a dizer a partir de uma história que parecia já ter sido recontada à exaustão. Mudando um pouco a perspectiva e readequando o ponto de vista, a obra apresenta uma realização perspicaz e uma ótima estreia em longas para a sua diretora, que se continuar com esse nível de sutileza e destreza narrativas, pode se tornar uma realizadora aclamada.

Nota do autor:

Avaliação: 3.5 de 5.

Gabriel Santana

Título OriginalDen stygge stesøsteren
Lançamento2025
País de OrigemNoruega/Dinamarca/Romênia/Polônia/Suécia
DistribuidoraMUBI
Duração1h49m
DireçãoEmilie Blichfeldt

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