Categorias:

Outros posts:

Foi Apenas um Acidente [Crítica]

Vencedor da Palma de Ouro de 2025, esse filme conta uma história simples, porém intrigante e curiosa. A sucessão de acontecimentos é engajante e por mais que certos pontos pareçam absurdos, isso nunca nos afasta da narrativa e ela só vai se tornando cada vez mais caótica e cativante. Nossa curiosidade nos mantém presos e tentando prever o que vai se desenrolar daquela história, mesmo que o filme esteja sempre a nos surpreender. Uma obra interessante e que valeu a assistida seja pela sua inusitada história, seja pela sua maneira excêntrica de transmitir uma mensagem.

Na trama acompanhamos Vahid, um homem que acredita ter encontrado um antigo inimigo que o prendeu e torturou durante um regime de opressão no Irã. O problema é que depois de tentar enterrá-lo vivo, a dúvida acerca da identidade real do sujeito assola a mente de Vahid, não o deixando consumar o ato. Assim, ele parte numa jornada para encontrar outros que passaram pela mesma experiência de tortura que ele na esperança de que eles possam identificar o sujeito, mas a incerteza abala ainda mais a convicção do que deve ser feito.

A trama parte dessa premissa curiosa e aparentemente simples de vingança, mas a jornada de descobrimento que os personagens atravessam acaba nos revelando mais sobre eles do que realmente sobre a vítima/culpado. O começo apressado ajuda a dar um dinamismo para a trama e atiçar ainda mais nossa curiosidade acerca do que virá a ser a problemática central do filme. Logo vamos começando a entender e absorver os simbolismos e significados espalhados desde o início do trajeto. A partir de suas hesitações, dúvidas e incertezas, a obra vai apresentando seu subtexto e nos envolvendo ainda mais com aquele grupo de personagens que nem mesmo se conhecem, mas que compartilham — além do dilema moral — um mesmo sentimento de vingança.

O que mais me chamou a atenção, além da trama, foram atuação e direção. E essas duas estão muito conectadas. A escolha por planos longos e ininterruptos força os atores a desempenharem uma entrega completa aos seus personagens sem qualquer respiro. Junto a isso, precisam ter uma noção e coreografia de cena impecáveis para garantir o sucesso da sequência. Muitas dessas cenas são de embates e discussões acaloradas e a sensação é claustrofóbica porque em muitas delas a câmera ainda está estática e são os atores que entram e saem de quadro. Nós ficamos lá, presos e esperando a definição — ou indefinição — dos protagonistas acerca do que vão fazer, assim como o apontado acusado.

Essa espera e essa imobilidade da cena jamais causam uma falta de progressão. Além disso, a fotografia é bastante inspirada e compôs cenários diversos, desde um amplo deserto até uma vista superior noturna com as luzes da cidade servindo de plano de fundo. Por mais que os pontos-chave aconteçam em momentos pontuais onde os personagens têm a chance de apresentar longos diálogos, a trama está a todo momento os levando de um lado para o outro e apresentando situações cada vez mais inabituais. Isso deixa-nos totalmente imersos numa ânsia por saber até onde eles vão chegar e o que então vão ser capazes de fazer.

De certa forma, o filme me passou uma sensação de que nós estávamos vivendo aquela experiência da perspectiva do sequestrado. Assim como ele, não sabíamos de nada a respeito daquelas pessoas e vamos descobrindo através das experiências insalubres, desgastantes e sufocantes que o filme nos carrega. Que fique claro que esse ponto de vista não nos faz diretamente sentir empatia por ele, mas apenas nos coloca nessa mesma situação do ponto de vista exterior. Colabora com isso a cena inicial e a primeira virada que acontece logo nos primeiros minutos de filme, trazendo uma abrupta mudança de perspectiva.

Além do desenrolar da narrativa ser engajante, o final em aberto — se é que realmente é aberto mesmo — dá um toque legal de dúvida e deixa o espectador pensando o que será que iria acontecer no desenrolar daquela história. É um final que combina com a experiência do filme e deixa uma sensação intrigante, nos fazendo pensar o que as escolhas dos personagens acarretaram ao longo daquele dia que acompanhamos e, acima de tudo, ao longo de suas vidas. Nos convida a refletir sobre as condutas e convicções daqueles personagens, além de, dependendo do ponto de vista mais otimista ou pessimista do espectador, causar um impacto especial ao final da experiência.

Uma obra bem interessante que consegue nos contar muitas coisas através dos detalhes e nos conduz por uma jornada tensa e intrigante, mas guardando espaço para muito mais desenvolvimento de personagens do que poderíamos imaginar numa simples trama de vingança convencional. O contexto político e social, as individualidades, as vivências de cada uma daquelas pessoas e suas perspectivas de passado e futuro são expostos e debatidos à exaustão, sem nunca parecerem discursos rasos ou preguiçosos, mas nos colocando cada vez mais sob a incerteza de se render aos impulsos ou seguir o coração.

Nota do autor:

Avaliação: 3.5 de 5.

Gabriel Santana

Título OriginalYek tasadof-e sadeh
Lançamento2025
País de OrigemIrã/França/Luxemburgo/EUA
DistribuidoraMK2 Films
Duração1h43m
DireçãoJafar Panahi

Onde Assistir?


← Back

Obrigado pela opinião! ❤️

Atenção

Navegação:

Posts Recentes:

Anúncios

Deixe um comentário

Anúncios