O filme conta a história de um grupo de pessoas queers que em plena ditadura resiste com sua casa de shows que trabalham aos preconceitos do mundo. O drama começa quando uma nova integrante chega ao recinto e para além da jornada come of the age da pra protagonista, o bar recebe no mesmo dia funcionários de um órgão de censura e precisam antes do anoitecer serem aprovadas em seus espetáculos pelos censuradores as suas apresentações. O projeto tem uma narrativa que traz em seu texto elementos de comédia muito bem desenhados para seu público. Faz da construção da narrativa um épico sobre amor e afeto queer.
Sobre filmes de época com pessoas queers me vem a pensar que são ótimas reflexões sobre a realidade atual que a comunidade está, traz a tona dores e amores de tempos que vez ou outra ameaçam voltar. O “subgênero” desses filmes busca reescrever – ou realmente escrever a primeira vez – uma história não contada sobre vivências que ocorreram e que pouco registro existe sobre. Um retorno ao passado para as minorias sociais é sempre uma oportunidade de pensar sobre as conquistas que tivemos e os avanços que ainda precisamos ter.
Segundo Andrade e Brito Alves (2021) as imagens que geram afetos e percepções são características do cinema. E o projeto de Henrique Arruda e Sharlene Esse não é diferente,
buscando criar a narrativa do projeto através de vivências próprias que acabam dialogando com públicos externos, como os cineastas sempre fizeram, só que agora tendo a diferença de ser aqueles que sempre tiveram às margens da sociedade falando sobre si e sua comunidade.
A utilização de técnicas e elementos linguísticos do cinema é muito evocada pelos artistas que trabalham no projeto, a mise-en-scène do projeto junta uma estética noir e clássica do cinema para construir um universo que está no passado, mas que espelha o presente de forma bastante organizada. Tem elementos que remetem a filmes de época – que é o caso dos letreiros – uma teatralidade que se distancia do realismo, elementos de enquadramentos que remetem a clássicos do cinema, além da fotografia na maioria do tempo sendo em preto e branco.
É através dos elementos narrativos que o fazer cinema se distancia da realidade para criar e se emancipar das dores do mundo para construir fabulações vitoriosas sobre a vida doloridas de corpos queers. Esse é um filme com final feliz, que busca ter uma felicidade genuína sobre situações externas à sala de cinema. A partir desse pensamento é importante evocar do texto de Andrade e Brito Alves uma parte que cita a diferença do mundo para o cinema e para o jornalismo.
Acreditamos que o cinema é uma importante ferramenta e um meio fundamental na produção de realidades comuns, principalmente quando o tomamos como espaço ou reserva de experimentação e imaginação do mundo, em oposição ao mundo dado como feito, concluído e acabado, que a televisão e os telejornalismos apresentam como fato, bem como ao mundo liquefeito, graças à circulação estonteante de imagens de choque imediato, geralmente descontextualizadas, insituáveis ou esvaziadas de sentido, nos meios digitais. (Andrade e Brito Alves, 2021).
O filme fala sobre um espaço de acolhimento e conforto para pessoas queers na época da ditadura e trabalha isso também em sua linguagem sendo um filme que acolhe quem assiste. Assistir esse filme em uma mostra que busca dar visibilidade às minorias sociais elevou ainda mais o projeto. Estamos cansados de narrativas que só falam de sofrimento e
esse cinema foi sobre acolhimento.
As personagens veteranas tentam durante o filme todo passar na censura, que cada vez mais está certa de fechar aquele lugar, até que a nova integrante – que há pouco tempo nem tinha um nome para se apresentar – chega para cantar uma bela canção de Gal Costa. As imagens ganham cor, o silêncio da plateia surge finalmente, censuradores e outras drag queens assistem ao espetáculo e o amor em forma de performance brilha até o subir dos créditos.
Nota do autor:
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ANDRADE, Catarina Amorim de Oliveira; BRITO ALVES, Álvaro Renan José de. O cinema como cosmopoética do pensamento decolonial. Logos, Rio de Janeiro, v. 27, n. 3, 2021. DOI: 10.12957/logos.2020.54458. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/logos/article/view/54458. Acesso em: 11 dez. 2025.

| Título Original | Era Uma Vez Diversiones |
| Lançamento | 2025 |
| País de Origem | Brasil |
| Distribuidora | Filmes de Marte |
| Duração | 20m |
| Direção | Henrique Arruda e Sharlene Esse |
Onde Assistir?
(Indisponível no momento)




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