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A Substância [Crítica]

“A Substância”, dirigido por Coralie Fargeat, é um filme que provoca o espectador a rever condutas contemporâneas ligados à modernidade, especialmente aquelas que atravessam o corpo e a construção da imagem. A narrativa acompanha uma celebridade mundialmente reconhecida que, angustiada pela representação de seu próprio corpo, passa a buscar soluções extremas, mesmo que isso coloque em risco sua vida e seu sonho. O filme tensiona, assim, a relação entre arte, visibilidade e a pressão estética imposta pela sociedade contemporânea.

Todo o desenvolvimento da narrativa é constantemente colocado em contestação, principalmente no que diz respeito à forma como o corpo é afetado diante do papel central hollywoodiano. Desde o início, percebo uma linguagem estética característica do cinema comercial, marcada pela construção de corpos femininos lapidados a partir de uma perspectiva que a sociedade impõe. Essa construção se organiza por meio de movimentos calculados e de uma estrutura narrativa linear, próxima à conhecida “receita de bolo” dos filmes tradicionais.

Uma característica marcante dentro da narrativa que me chama atenção é a submissão do espectador a uma experiência baseada na textura, na agonia e em um desconforto profundamente físico. As sensações surgem, principalmente, quando o filme explora o corpo, o toque e o desgaste extremo, fazendo com que a relação pele a pele se torne algo estruturalmente manipulado para ser sentido. O figurino e a maquiagem reforçam esse processo, intensificando uma melancolia e uma bizarrice visual que afligem o espectador e sustentam um visual clínico e cirúrgico, atuando diretamente nas sensações provocadas.

Com isso, a direção de fotografia se destaca em diversos aspectos, sendo fundamental na construção do sentimento e na criação de uma proximidade quase invasiva entre o espectador e os personagens. A presença constante dos planos-detalhe chama especialmente a atenção, pois intensifica a percepção da textura e aprofunda essa relação de proximidade. Momentos como aquele em que a agulha perfura repetidamente o corpo da personagem, ou a cena da dança, em que a câmera percorre lentamente seu corpo, reforçam uma experiência sensorial marcada pelo desconforto e pela exposição. O corpo, o movimento e os enquadramentos — muitas vezes exóticos e desconcertantes — ressaltam a vulnerabilidade de cada personagem, articulando uma tensão entre o corpo que sente e o corpo que é observado. Trata-se de um jogo preciso de cenas, planos e contextos, trabalhado meticulosamente para dialogar diretamente com a narrativa.

As atuações de Margaret Qualley e Demi Moore se destacam no desenvolvimento da narrativa por sustentarem a tensão e a construção das personagens. Cada atriz apresenta uma personalidade própria, perceptível na troca de corpos, no poder de ocupação dos contextos e na contraposição entre as personagens. Essa dualidade não se limita ao conflito ficcional, mas se manifesta no trabalho corporal e performático, no qual ambas conseguem delimitar espaços, gestos e nuances, construindo uma diferença clara entre as personalidades. O filme também dialoga com um contexto contemporâneo em que cresce, especialmente entre os jovens, a busca por corpos “novos” e “imutáveis”. A necessidade de adequação estética se intensifica como uma exigência constante pela perfeição. “A Substância” transforma o corpo em território de angústia e decisão, estabelecendo uma relação direta entre a ficção e a realidade estrutural da sociedade, onde essa pressão estética se manifesta de forma concreta e cotidiana.

Nota da autora:

Avaliação: 4 de 5.

Mirelle Alessandra
Revisão: Gabriel Santana

Título OriginalThe Substance
Lançamento2024
País de OrigemReino Unido/França
DistribuidoraMUBI
Duração2h21m
DireçãoCoralie Fargeat

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