Nossa Crítica
“Osmose Jones” é um filme de 2001 da Warner que traz uma mistura entre dois universos, o mundo real e o mundo microscópico que se passa dentro do corpo humano. É uma mistura de live-action com animação que poderia funcionar muito bem não fosse a parte do mundo real do filme. Enquanto estamos no mundo animado, dentro do corpo de um dos personagens, podemos acompanhar uma trama cativante e bem interessante, que aborda conceitos biológicos de maneira até que bem divertida. O funcionamento dos órgãos, os pequenos seres que se movimentam numa espécie de grande metrópole que é o corpo humano, tudo isso funciona muito bem e tornaria o filme uma boa experiência, na minha opinião. O problema está quando o mundo real é abordado. Seja pelas interpretações ou até mesmo pela trama extremamente desinteressante, a parte de live-action do filme é, para mim, uma completa vergonha alheia. Por que toda essa introdução? Para falar que “Um Filme Minecraft” poderia facilmente fugir desse exemplar ruim e ter uma trama somente dentro do universo fantástico do jogo, mas de longe essa é uma das minhas menores implicações com essa obra.
Eu fiquei realmente surpreso quando ouvi falar, há muito tempo, que um filme relacionado a Minecraft vinha sendo produzido. Por ser um jogo de mundo aberto, sem história bem definida, não sabia muito bem como aquilo poderia ser realizado, mas apreciando exemplos como o de “Uma Aventura LEGO”, talvez o filme pudesse ser algo maior do que apenas uma produção para vender bonequinhos. Mesmo sendo um fã de longa data – eu tenho até uma tatuagem desse jogo – claro que minha opinião estaria bem enviesada pelo que eu sei a respeito da obra original, mas desde o início tentei deixar essa minha experiência de lado para apreciar o longa com uma visão mais ampla. Bem, aqui estamos nós. O filme está nos cinemas e, no final das contas, não sei se consegui apreciar esse filme de mente aberta como pretendia. Mesmo sendo uma produção descaradamente mais focada no público infantil, acredito que muito potencial foi desperdiçado e quase nada do jogo em si foi aproveitado além de algumas referências vãs.
Chequemos a trama. Steve é um garoto criativo e que se via travado no mundo real. Suas ideias sempre ficaram presas dentro da caixinha da sua mente e quando adulto ele teve a vontade inexplicável de virar um minerador. Ok, tudo bem, né? Vamos lá. Assim, Steve acaba encontrando em suas escavações um objeto cúbico brilhante que abre um portal e acaba o transportando para um universo único, mágico, enorme e quadrado, o universo de Minecraft. Lá ele aprende a sobreviver e a usar a seu favor a sua grande criatividade para criar e construir tudo o que ele sempre sonhou. Porém, certo dia Steve acaba encontrando uma outra dimensão em seu mundo quadrado, o Nether. Isso trouxe uma enorme ameaça à estabilidade de seu mundo fantástico, que o fez optar por salvaguarda-lo enviando o cubo mágico de volta para o mundo real. Pode parecer que eu contei a história toda, né? Mas não, esses são literalmente os primeiros 5 minutos do filme. Ou melhor, a desculpa para inserir essa trama interdimensional aqui. Enfim, outras pessoas acabam encontrando o orbe tempos depois e também vão parar nesse mundo desconhecido, trazendo de volta com eles um grande perigo para aquele universo – e agora sim o filme começa.
Mas por onde eu começo? Bom. Como citei anteriormente, não via necessidade para a inserção de um mundo real nessa obra. Para mim o filme poderia simplesmente ser uma animação e digo mais, poderia ter um aspecto mais parecido com o do jogo de origem. Mas eu aprendi que não se deve julgar um filme pelas expectativas que você tem dele e, como uma obra à parte e distinta do jogo, não há implicações em ela criar e ter a sua própria identidade. Mesmo com um estranhamento inicial, não vi grandes problemas quanto a isso depois de alguns minutos de filme. Ou talvez nem pude reparar tanto nisso já que tinha muito mais incongruências chamando minha atenção, principalmente no que diz respeito à narrativa.
Em completo contraste em relação a como o jogo original é, que aventurazinha fácil temos aqui viu. É claro que obras como “Uma Aventura LEGO” são meio raras e adaptações de um produto anterior tendem mesmo a ser complexas de se idealizar, mas além de a trama pouco ter a ver com o universo prévio do game, a quantidade de facilitações e “trapaças” narrativas são tão descaradas que até surpreendem. No filme de 2014 citado, conseguiram inserir uma trama com complexidade e até com uma mensagem importante dentro de um universo bem aleatório, cinematograficamente falando, mas seus realizadores foram tão hábeis que todas as peças se encaixaram – perdão pelo trocadilho – de maneira até genial, eu diria. Só pra exemplificar o que eu falo sobre facilitações, há uma cena em que uma personagem está desesperada procurando por um outro. Nisso, uma outra pessoa chega, pega um celular e em 5 segundos diz: olha eles estão indo para as minas. Mas como ela descobriu isso? Câmeras? Notícias? Redes sociais? Um rastreador GPS? Não sei. Talvez nem o filme saiba. E isso acontece bastante.
E o que falar desses personagens? Não falo nem em relação a mistura de animação e live-action, que sinceramente está até que bem convincente, a meu ver. Vejo uma possível trama interessante com o garoto nerd que é super criativo e deslocado de sua realidade que poderia muito bem entrar como um sucessor do Steve e gerar uma narrativa de discípulo e mestre, mas que pouco é aproveitada aqui. A sua irmã mais velha não me incomoda e só está lá para ter alguma pitada de apelo dramático. A moça dos animais, já começa a ser meio deslocada, mas combina com a vibe cômica e até que tudo bem, poderia fazer sentido e até tentam utilizar sua vocação na trama. Até mesmo o Steve de Jack Black com seu jeito excêntrico e carisma próprio não me incomodaria se a trama tivesse um pouco mais de requinte, mas o que é esse personagem do Jason Momoa? Não sei o que tentaram representar, se tentaram homenagear os jogadores antigos do game que agora na data de lançamento do filme já são adultos ou sei lá o que, mas se foi isso acho que a homenagem tá mais pra ofensa. De longe, sua história e a subtrama do villager foram o que mais me fez perder a imersão quando a realidade era apresentada.
Tem tão pouco de Minecraft nesse filme afinal de contas. São tantas ideias que poderiam ser usadas. Eu acho que conseguiria criar agora um roteiro mais condizente com o jogo em poucos minutos, mas não sou eu o responsável por essa obra, então foquemos no que ela nos apresenta. Como já mencionei, o roteiro é fraco até mesmo para uma aventura infantil. Não há de fato uma emoção, uma tensão ou um receio pelos personagens. É como jogar o jogo no modo pacífico. Todas as soluções são colocadas como mágica pelo roteiro. Até nos pontos em que as dinâmicas únicas e as peculiaridades do jogo poderiam ser usadas para ampliar a criatividade dos roteiristas, parecem que vão sendo esquecidas ao longo da trama. O truque com o balde de água, por exemplo – o famigerado MLG – poderia ser facilmente usado na sequência final, mas ao invés disso, foi introduzida uma ameaça para criar uma tensão artificial. Não sei se fui somente eu que já tinha perdido a imersão naquela parte, mas foi para mim o ápice dessa questão. A parte visual é bonita, bem trabalhada, os efeitos são até que legais, a trilha, que vagamente faz referência a trilha do jogo, é um bom apelo nostálgico, mas isso tudo é tão superficial para mim. Está aí, esse é um filme bem superficial em relação ao jogo em si.
Acho que tudo nesse filme se concilia no enredo num único adjetivo: fácil. O roteiro é uma sequência de facilidades, a narrativa em si é tão bobinha que até uma criancinha com um mínimo de conhecimento do jogo entenderia – esse é justamente meu argumento do que motivou os realizadores – e as conexões com a obra original estão bem aquém da complexidade que poderia ser abordada. Só pra exemplificar, o jogo é um sandbox “infinito” onde qualquer um pode usar a criatividade para criar qualquer coisa. E quando eu digo qualquer coisa é qualquer coisa mesmo. Um exemplo disso é um jogador que construiu dentro do game um computador funcional utilizando apenas os sistemas internos do jogo. Além dessa, existem diversas outras criações surpreendentes que podem ser encontradas pela internet a fora. É só entrar no canal do viniccius13 no YouTube, por exemplo, e ver o que se pode fazer propriamente para criar inúmeras possibilidades de expandir a experiência do jogo por meio do próprio jogo. Inclusive, acredito que seus vídeos, de 40 minutos a 1 hora, são mais divertidos do que esse filme. Por fim, não! Quando o filme resolve inserir números musicais não dá. Aí já é demais pra mim. Vou me ater a esse comentário.
Não vejo mais motivos para expressar meu desagrado com essa obra. Mesmo não sendo de fato entediante, é uma aventura tão genérica e que traz tão pouco da magia que poderia ser alcançada que não me trouxe nenhum sentimento bom. Apesar de alguns momentos de vergonha alheia, indignação e desorientação, essa foi pra mim uma experiência bastante apática. Ah, e tem pós-créditos. É só mais uma referência jogada, mas que até que foi legalzinha de se ver, mesmo não sendo nada tão incrível assim. Ao sair do cinema dois comentários me foram bem interessantes e dizem bastante a respeito do que é esse filme para os diferentes públicos. O primeiro foi de um menininho de seus 5 ou 6 anos falando que o filme era muito divertido. O segundo, uma adolescente que falou: que bela bosta viu, pensei que ia ter alguma coisa parecida com o viniccius13. Com isso, encerro aqui meu relato.
Um Filme Minecraft – Análise do Filme
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