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O Homem dos Sonhos

O Homem dos Sonhos

2023 1h 42min Kristoffer Borgli 0
3
AVALIAÇÃO
Publicado em 14 de jan de 2024 às 19:00

Nossa Crítica

Nicolas Cage estrela mais um filme curioso na sua carreira e dessa vez a produção vem de um estúdio famoso por ideias fora da caixinha, a A24. Já virou um costume meu dar uma olhada nos filmes que o Nicolas Cage protagoniza, já que de um bom tempo pra cá ele vem aceitando papéis cada vez mais incomuns e em algumas oportunidades isso se revelou uma combinação satisfatória tanto para o astro, quanto para essas produções, geralmente menores. Nesse caso, a combinação pareceu dar certo, pelos menos pela sua boa recepção. No meu caso o filme me interessou na premissa e conseguiu até me transmitir suas ideias, mas a dinâmica não me entreteve tanto.

Misteriosamente, do dia para a noite, um homem comum começa a aparecer nos sonhos de várias pessoas totalmente desconhecidas. O que parecia ser uma histeria coletiva pequena e localizada acaba se mostrando um fenômeno global. Do mesmo jeito que ninguém conseguia explicar o que fez isso começar, ninguém entendia muito bem o seu funcionamento e assim, Paul Matthews, um velho e desconhecido professor acadêmico, precisou aprender a lidar com a fama súbita e suas consequências positivas e negativas.

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O filme tem claramente dois tons distintos nas suas duas metades, mesmo havendo sim intercâmbios entre essas partes. Na parte inicial o tom cômico predomina e a história é bem mais leve e curiosa. Presenciamos uma ascensão inacreditável de um personagem desconhecido que se torna uma figura pública por eventos coletivos estranhos. Já no restante final da obra observamos a realidade desgastante da fama e suas piores consequências. As alusões que o filme traz a tona dialogam muito com o mundo atual e isso deixa a obra muito bem alocada nesse tempo. Mesmo assim, muita coisa destoou, seja na comédia, seja no drama, mas principalmente na comédia, a meu ver.

A fama pode ser algo encantador a primeira vista e isso pode até possibilitar muitos avanços na vida pessoal de uma pessoa, mas sem um psicológico forte e preparado, todo esse movimento pode trazer consequências desgastantes. Essa premissa é o ponto de partida do filme, mesmo que pra isso seja utilizado uma circunstância surreal, até mesmo para auxiliar no desenvolvimento cômico da obra. Mesmo que a produção aborde essa problemática social ampla, o personagem protagonista não deixa de ter seu desenvolvimento próprio, com suas próprias fraquezas, inseguranças e desejos. Nesse sentido, o filme é bem competente em não o resumir apenas a uma pseudo celebridade vazia para nós espectadores, já que é justamente isso que o resto do mundo do filme acredita.

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Com a fama e a alta exposição que as redes proporcionam para alguém, um dos principais medos de um famoso é o de ser cancelado. Essa ação já se tornou tão comum que se transformou até numa espécie de cultura. A intolerância online geralmente é mais pesada por causa dos mecanismos de anonimato e associação em massas populares consoantes. Assim, o mundo atual apresenta um repúdio enorme para qualquer um que quebre alguma das regras morais estabelecidas, não pelas leis ou pelo bom senso, mas apenas pelo que a maioria acha. Ir contra as massas pode ser o fim da vida para alguém. E esse é o segundo ponto chave da obra em questão. O perigo de não ser compreendido ou de nem sequer ser ouvido corrompe a vida do, aparentemente sensato e lúcido, professor, levando-o numa descida íngreme e contínua de desastres.

TÁR” é um filme que me veio a cabeça pela semelhança em relação a esse modo como nós acompanhamos o declínio vertiginoso de uma personalidade central. Mas claro que também existem muitos contrastes entre as duas obras, afinal em “O Homem dos Sonhos” podemos acompanhar a jornada desde o anonimato até a super popularidade e então sua queda. O sentimento de acompanhar uma jornada anticlimática é de desconforto, o que é alcançado com sucesso, mesmo que isso deixe um gosto ruim na experiência final. Nesse sentido, essa realização se mostra como um acerto, no final das contas. Por outro lado, foram outras dinâmicas do filme que já foram me afastando um pouquinho desde a metade do longa. A comédia nem sempre funciona ou se mostra criativa. Outro ponto negativo é a união das pontas entre essas duas ou três viradas que eu citei que o filme têm. Um pouco disso ficou meio frouxo e deu a sensação de que foi abandonado pela direção apenas para dar espaço para que o enredo principal se concluísse.

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Enfim, essa é uma obra complicada e que precisa de certas conceções para ser aproveitada. É necessário entender que nem todas as histórias vão se solucionar ou se resolverem satisfatoriamente e só quebrar esse paradigma já é complicado. Por isso, para que a contraversão dessa regra clichê seja bem sucedida e bem aceita pelo público, o filme tem que ser um clássico incontestável, o que esse filme aqui realmente não é. Com seus pontos defeituosos e um desenrolar arriscado, o longa perde alguns pontinhos de carisma, mesmo que a maior parte das suas críticas e discussões sejam bem elaboradas. A experiência é válida, no final das contas, e pode realmente surpreender – ambiguamente, entretanto.

Nota
3

Gabriel Santana

Cena final

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