Nossa Crítica
Filme de estreia do já aclamado diretor Jordan Peele, Corra! é um terror social extremamente inteligente nas suas mensagens e que consegue contar uma história intrigante e envolvente com uma profundidade narrativa surpreendente. Demorei um pouco para me aventurar na filmografia do Jordan Peele porque estava esperando um momento propício para aproveitar seus filmes que já tinha conhecimento da qualidade e agora posso confirmar minhas expectativas com esse primeiro, ao menos.
Acabei assistindo a esse filme duas vezes e acredito que tenha sido uma escolha correta pois assim eu pude avaliar melhor os detalhes da trama e também prestar atenção nas inúmeras críticas sociais que aparecem na história. Conhecemos Chris, um fotógrafo negro, que vai passar alguns dias na casa de sua namorada Rose. O que, no começo, poderia ser uma experiência desconfortável para Chris por a família de Rose inteira ser branca e desconhecer sua identidade, acabou se revelando uma sinistra enrascada para o protagonista.
Não demora nada para que o filme já comece com suas alfinetadas a situação da população negra na sociedade americana – e podemos elevar isso para um contexto mais próximo ao nosso, no Brasil. São inúmeros detalhes que vão desenvolvendo essa problemática social que permeia todo o filme e tem em seu cerne o real terror da trama. A atmosfera de tensão vai se criando lentamente com pequenas pistas sendo deixadas desde o início da narrativa através do desconforto e do estranhamento. A partir do momento que alguns elementos mais peculiares vão surgindo, algumas indagações vão sendo formadas na mente do espectador a respeito daquela situação em questão e também numa perspectiva mais geral da problemática. O filme não precisa fugir de uma situação limitada para expor um contexto arraigado a cultura hegemônica. Acho que aí habita parte da beleza desse filme.
Em relação a seu protagonista podemos entender seus traumas com um bom desenvolvimento de personagem que vai se espalhando por toda a duração da trama e não deixa de tocar, através deste, em outros temas menores, mas não menos importantes para a história. Chris é curioso e sempre está atento a detalhes que teima em não se atentar a fundo, mas que são capazes de esclarecer toda a problemática da história se as peças forem conectadas com atenção. Posso dizer isso porque, mesmo não sabendo de nada a respeito da trama, consegui captar tudo o que estava por vir, mas não de um jeito que tornasse a trama previsível e desinteressante e sim de uma maneira que só me aumentou a curiosidade e o receio pelo protagonista.
Pontos extremamente surpreendentes aqui, pra mim, são a fotografia e o som. Juntos formam um produto audiovisual palatável aos nossos sentidos que nos conquistam facilmente e assim o longa pode investir na sugestibilidade ao longo da narrativa sem necessitar de grandes sustos ou perigos iminentes para gerar o suspense. Agregado a isso tudo, o detalhismo do diretor, com a simetria das cenas e os pequenos elementos visuais que a direção de arte compõe, agregam muito a experiência, como já citado, dando mais respostas do que parecem.
Como mencionei na introdução, esse aqui é um terror social que se destaca por sua forma e estrutura que está totalmente baseada nesse contexto para se desenvolver. Os terrores do passado de Chris voltam a atormenta-lo literalmente e metaforicamente, numa perspectiva pessoal e social, em concordância às críticas a uma sociedade tão presa as heranças e memórias da escravidão. São pontos sutis e outros explícitos que discutem o papel do negro na sociedade, sua maior busca por igualdade e as sempre reafirmadas formas de racismo velado que surgem, por exemplo, numa empregada “da família”, numa desconfiança irracional e na reafirmação de ideias segregacionistas de maneira, digamos, educada. Assim, a trama desenvolve críticas certeiras e inteligentes a sociedade, brincando com elementos de terror e quebras de expectativas sem perder a originalidade e ainda encontra espaço para nos fazer refletir até através do humor.
Sem dúvidas, esse é um dos clássicos do gênero dessa geração e que demonstra a grande expertise de seu realizador que conseguiu expor tanto de uma maneira tão perspicaz e precisa. Seja, em parte, por sua tamanha veracidade autoexplicativa ou, por outro lado, pelas suas sutis críticas deixadas pelo caminho, esse é um filme muito consciente do seu papel e da sua função social sem deixar de ser uma obra extremamente atraente e interessante de se experienciar.
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