Nossa Crítica
Acredito que essa seja a obra mais conhecidas de Eduardo Coutinho e uma das únicas que eu já tinha ouvido falar antes de entrar em contato com as produções do diretor brasileiro. Esse é um documentário que reconta através de memórias uma realidade tão dura e assustadora que parece ter sido escrita para um filme.
A trama acompanha a equipe do diretor Eduardo Coutinho na sua busca por reencontrar os participantes da produção de Cabra Marcado Para Morrer, um filme que contaria a história de João Pedro Teixeira, um homem assassinado por causa de suas lutas nas ligas camponesas no interior da Paraíba, no início da década de 60. A produção original teve que ser interrompida por causa do golpe militar de 64 que fez com que vários dos integrantes precisassem se dispersar e muitos envolvidos sofressem na pele as perseguições que antes foram responsáveis pela morte de João Pedro.
Após voltar ao lugar onde o primeiro filme havia sido gravado e mostrar aos moradores da região as antigas filmagens recuperadas, Coutinho começa uma jornada para recontar aquela história através das recordações dos moradores locais que também atuaram no filme. As buscas expõem o sofrimento que eles passaram nos anos mais severos da ditadura e como as lutas por terra ainda eram – e ainda são – uma realidade do período. Com toda essa remontagem histórica, Coutinho e nós vamos ao encontro da personagem central dessa nova história, a esposa de João Pedro Teixeira: Elizabeth Teixeira. A viúva é encontrada escondida em uma cidade do interior do Rio Grande do Norte, fugida da perseguição e com medo de sofrer tudo o que seu marido passou.
A partir daí, vamos conhecendo ainda mais camadas da história, alternando a visita a dona Elizabeth com passagens de Galileia, localidade onde o primeiro filme foi gravado. Com essas duas perspectivas somos capazes de entender como a perseguição política promoveu o terror entre aquelas pessoas e expôs todos eles a uma realidade de solidão e distância dos familiares. Elizabeth nunca mais havia tido notícias de seus pais ou de muitos de seus filhos que ela não tinha levado com ela para o Rio Grande. Assim, acompanhamos a jornada de Coutinho, que agora entra de uma vez por todas na história, para buscar por aqueles personagens que estavam esquecidos.
Ainda em meio a ditadura, há certo receio de se expressar como se gostaria, com uma das passagens mais impactantes sendo gravadas nas últimas cenas de maneira improvisada, onde dona Elizabeth expõe sua perspectiva de sociedade e critica a “democracia” do período. Essa realidade, no entanto, não impediu Coutinho de ir a procura dos filhos de João Pedro e Elizabeth Teixeira que foram separados em diversos locais do país. Cada um tem uma experiência de vida diferente e expõe suas memórias. Alguns com mais receio e outros mais espontâneos.
Essa remontagem histórica que gira em torno de uma outra obra, além de ser um exercício de metalinguagem que está diretamente ligado a história de cada um dos personagens reais abordados, consegue expor uma narrativa histórica contundente do que se passou no Brasil daquela época e como a luta por direitos e revolta do povo camponês foi duramente reprimida.
Além de contar a história e os contextos do que seria uma de suas obras passadas, Eduardo Coutinho acaba criando um retrato histórico que tem como protagonistas os mesmos que antes apareceriam atuando, mas dessa vez podem expor toda a realidade de maneira mais cativante e tocante. A maneira como as memórias são o ponto central da narrativa é capaz de nos conduzir por uma retrospectiva dos acontecimentos que diz muito sobre aquela realidade e sobre o que passou o país naquela época.
Comentários da Comunidade
Carregando comentários...



