Nossa Crítica
Seguindo minha jornada de conhecer alguns dos clássicos do cinema mundial, hoje foi o dia de apreciar uma obra formidável da década de 50, do renomado diretor Alfred Hitchcock. Janela Indiscreta pode ser, hoje em dia, para muitos, um pouco lento e monótono, mas, pra mim, mesmo sendo a primeira vez que eu o assisto foi uma experiência ótima e surpreendente.
Na trama conhecemos o fotógrafo Jeff que está incapacitado de trabalhar pois está com uma das pernas quebradas depois de um de seus trabalhos arriscados e por isso seu maior passatempo é observar a vizinhança pela sua janela durante longas horas do seu dia. Nisso, ele acaba percebendo comportamentos estranhos de um de seus vizinhos e fica paranoico para tentar entender o que está acontecendo. É interessante perceber, sendo o primeiro filme que eu assisto do Hitchcock, como ele realmente tinha uma visão diferenciada para contar suas histórias. Somos apresentados de maneira perfeita ao cenário e aos seus principais personagens com um plano sequência que parece não dizer muita coisa, mas no fundo está nos comunicando tudo o que, mais tarde, o roteiro vai nos expor. Além de contar uma história que parece afrente do seu tempo, abordando comportamentos de um stalker que fica obcecado em saber tudo sobre a vida de alguém, semelhante ao que acontece atualmente com as redes sociais, o filme é incrivelmente hábil em nos transportar para o lugar de seu protagonista, fazendo uma alusão clara ao nosso posicionamento de espectador diante da tela. Uma metalinguagem excepcional e uma decisão narrativa incrível. Com essa escolha de nos manter presos ao olhar do seu protagonista, o diretor consegue criar uma atmosfera de tensão e suspense impressionantes que não necessita de uma grande trilha sonora e efeitos sonoros não diegéticos, pois só a claustrofóbica sensação de não podermos ter acesso ao que está acontecendo ao redor do protagonista, nos sentimos indefesos, assim como Jeff. Ao contrário do convencional, a trilha sonora é composta por sons e músicas que ecoam da própria vizinhança, dando um ar de veracidade assustador ao que acontece por ali. O escalonamento da tensão e dos questionamentos do protagonista em relação ao que está acontecendo diante dos seus olhos também nos faz duvidar do que estamos imaginando e do que os pequenos detalhes da trama nos estão comunicando. O clima de tensão vai chegando ao seu clímax lentamente e isso ajuda ainda mais a causar um incômodo legal no seu espectador. É um estímulo interessante para um público que está acostumado a uma velocidade exagerada do cinema moderno. Esse filme me fez lembrar muito do recente “Watcher” que tem uma trama bastante semelhante e uma atmosfera que me deixou muito preso e tenso de uma maneira parecida ao filme de 1954. Depois de conhecer seu antecessor espiritual, são perceptíveis suas inspirações no clássico do cinema mundial de Hitchcock e é interessante como as decisões narrativas são diferentes, mas conseguem trazer o mesmo nível de tensão no público. Mas se o recente consegue se destacar pelo clima e atmosfera de tensão criadas, o antigo se destaca, além disso, pela sua metalinguagem e genialidade na condução da câmera por um dos gênios do cinema. Ambas são experiências próprias que merecem ser sentidas a fundo. Recomendo os dois, com pontinhos a mais para o clássico, que ainda hoje pode ser um filme contemporâneo e surpreendente.
Como é bom perceber que a arte do cinema consegue atravessar o tempo principalmente quando sai da mente de um grande diretor, que por mais controverso que seja, demonstra uma capacidade incrível de criar uma obra atemporal para o cinema. Observar clássicos como este são importantes para entender como vários dos conceitos atuais do cinema foram criados e aperfeiçoados ao longo dos anos e como os filmes que os utilizaram de inspiração posteriormente sempre rendem referências a essas obras clássicas do cinema mundial.
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